Trechos de entrevistas concedidas a Dayz Peixoto Fonseca em 1980

"o conceito..."

“O que eu fazia estava apoiado num certo conceito todo meu, de imaginação, de colocar os elementos, de estruturar a criação, porque de outra maneira eu não sabia, eu não tinha conhecimento técnico. Então, aquilo me satisfazia. Posso chamar isso de comunicação? É bem complicado o termo? Então cheguei à conclusão de que a vontade é de comunicar comigo mesmo. E continuo fazendo isso até hoje”.

"a síntese..."

“Começo a trabalhar colorindo, mas depois vou descolorindo. Se alguém tirar o cinza do meu trabalho vai encontrar cores. É uma questão de clima. A cor povoa, cria personagens e eu não quero ninguém. Vou chegar à tela em branco. Ponho a moldura num quadro branco. Mas ainda não tive coragem. Ou apenas um traço”.

“em síntese com paixão…”

“Mesmo fazendo pouco, como geralmente eu faço, faço tudo com tanta paixão, que não destaco nenhuma obra da outra. E agora, numa análise clínica, talvez um crítico, um entendido saiba separar o que é inferior a outro. Eu não saberia, porque foram feitos com o mesmo sentido. Quando eu sinto que não resolvi, eu rasgo. Se não rasguei, é porque aceitei a criação. Então, tem o mesmo caráter, o mesmo valor, tudo”.

“ausência definida…”

“O corte é para determinar o círculo como árvore. Porque essa linha de círculo é a maneira mais difícil de falar da árvore. Se eu a esboçasse de mil e uma maneiras seria fácil, mas com a intenção de fazer através de uma forma fica mais difícil”. Falar da árvore através de uma linha mais pura é mais difícil. Há sempre uma estrutura formal que implica na ausência do óbvio”.

“autorretrato…”

“Se eu fizer um autorretrato, tenho a certeza, será realmente como eu gostaria que me vissem. Eu tenho certeza que eu não faria meu retrato como realmente sou. Porque você esconde, entende? Você quer ter a melhor das aparências em todos os sentidos, não só aparência física. Se eu fizer um autorretrato tenho certeza que eu vou me enfeitar. Não por pretensão de mentir e nem para te enganar. É a vontade do que eu gostaria de ser. Não haveria nenhuma sinceridade nisso”.

“a paixão pela 7ª arte…”

“Não considero a paixão que eu tenho pelo cinema como hobby. É uma necessidade que nós temos, um alimento. Eu me lembro da primeira vez que assisti A Doce Vida, de Fellini. Me entusiasmei. Depois assisti A Noite, de Antonini. A Doce Vida achei estranho, mas, de imediato, maravilhoso. Quando assisti A Noite, eu estava com o espírito mais esclarecido e cheguei a agradecer a Deus  por ter assistido aquele filme. Cheguei mesmo. Cheguei em casa e disse: “Meu Deus do céu, que privilégio ver esse filme”.

“a paixão pelo vento…”

“O que mais me apaixona, o que passa até a interferir em algum compromisso, mesmo que eu tenha um convite para uma coisa que esteja esperando há tempo, que esteja entusiasmado, aguardando o instante? O vento. O vento me apaixona. Eu sinto o efeito, me da uma definição, que parece uma coisa bíblica para mim. Eu posso estar fisicamente doente, que me revigoro, sou capaz de sarar. Agora, nessa parte eu sou bem estranho e errado, acredito. Eu tenho fobia pelo sol. Fobia mesmo. E sei da necessidade. Sei da contribuição benéfica que ele traz para mim também. Sou ingrato! Sei do bem que ele me faz e “detesto” ele!”

“ a dança…”

“A dança é uma das coisas pelas quais tenho a maior paixão. Nunca tive a intenção de ser bailarino, mas me apaixona. Tanto o balé clássico como o moderno. Eu gostaria de ilustrar aquela habilidade, um traço, uma leveza, espontaneidade de traço. O balé para mim é aquele abandono, um abandono calculado. Acho fantástico. Para mim, o bailarino está vivendo e vibrando como eu vibro como espectador. O porquê eu não sei: ignoro totalmente a parte técnica. Parece que é um rasgo, um traço, leve, espontâneo. Eu passaria o dia inteiro vendo a imagem de dança”.

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